domingo, 27 de novembro de 2016

Rain


Rain (1932), Lewis Milestone

São 5h da manhã. Acordo com a chuva. A intensidade dos pingos que fustigam a janela encaminhou-me o juízo ensonado para um filme dos anos 30. Não me lembro do nome do realizador. Só sei o título: Rain. Nele, Joan Crawford é uma prostituta de ilustre solidão, no meio da chuva prolixa da ilha de Santa Catalina. Por momentos, abandono-me à memória desse preto e branco fechado, à cena específica em que Crawford confessa a William Gargan que se sente tal e qual uma criança que acorda de noite, a meio de um pesadelo, e não tem ninguém para ouvir o seu grito e confortá-la. Honradamente, Gargan ("handsome", como ela lhe chama, na sua farda de sargento) diz-lhe que sempre que ela gritar por ajuda estará ali. Pois. Entretanto, a chuva mantém-se violenta, a sublinhar as grades da prisão desta mulher… a certa altura, deixo de ouvir as suas vozes, fica apenas a maldita chuva, que se mistura com o ruído da película antiga. Gosto desse burburinho de decrepitude no grande ecrã. Sei que agora chove apenas dentro da minha falta de juízo. Mantenho-me de olhos fechados. O gato já sossegou. Será que lá fora o céu ainda labora na sua enxurrada?

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